Como autarca de freguesia ao longo de oito anos, fui compreendendo que um dos grandes problemas dos nossos políticos é a sua distância à realidade das coisas, do dia a dia das pessoas, dos seus anseios, dos seus problemas.
Acredito que tenha sido um Presidente da Junta diferente, por aos 30 anos ter já exercido dois mandatos autárquicos; e por ao longo desse tempo, com as limitações próprias da idade e da minha própria capacidade de entendimento das coisas, ter mantido um grande interesse pelo estudo e compreensão das questões nacionais de uma forma abrangente.
Ao olhar para cima, o problema que fui observando em muitas das decisões do poder central, é que a legislação aprovada e as decisões de carácter executivo eram tomadas de forma ligeira, sem o necessário contacto com os técnicos, com os cientistas, com os professores, ou simplesmente, com as pessoas.
Seriam muitos os exemplos, lembro-me de uma Assembleia Municipal em que muita gente ficou espantada, quando denunciei que o programa Novas Oportunidades (que estaria a esse tempo, a recolher a simpatia de praticamente todos os partidos) era um embuste, e denunciava casos em que as pessoas saíam das fábricas - dos seus empregos - para se inscreverem neste programa subsidiado no qual durante uns meses receberiam formação, mas que depois, quando o programa acabasse, sairiam com um ‘falso’ diploma de 9.º ou 12.º ano, mas o emprego que tinham antes já não estaria à sua espera.
E depois, lá ia o estado ‘asilo’ ter de suportar mais gastos sociais, e lá ia o desemprego subir.
É claro que a qualificação dos portugueses é importante. Mas a qualificação que aumenta a produtividade e assim a competitividade da nossa economia. Não a fabricação estatística para nos puxar desse vergonhoso fim da escala, que nos coloca com uma escolaridade média de 8.º ano.
Já não sou autarca – por opção de não recandidatura, coisa pouco habitual, não é? – mas continuo a questionar-me sobre algumas das decisões que são tomadas.
Hoje foram as redes de muito alta tensão. Que graças a PS e PSD vão continuar a não ser tratadas com a exigência que deveriam.
Isto, e deixem-se lá de coisas, por existirem JUSTAS intervenções a ser realizadas, para preservação das populações. DESPESA necessária para salvaguarda do bem-estar de algumas populações que vêem passar por cima dos seus telhados estas linhas condutoras de electricidade.
Existem estudos científicos, que provam uma relação directa entre o aparecimento de tumores e problemas neurológicos em populações, que estão expostas a radiações deste tipo infra-estrutura.
Nos Estados Unidos foram vários os casos de intervenções dispendiosas no sentido de afastar estas linhas de zonas residenciais.
Porque é que não se aumentam estes limites de radiação, se é reconhecido que neste momento eles estão num valor demasiado baixo? Porque não se mudam as linhas mais próximas das zonas residenciais?
O que é mais importante? Os lucros da REN ou a tranquilidade ou a saúde destas populações?
Porque não se soterram as linhas, quando há relatórios da comissão europeia que explicam a sua vantagem, até económica, do ponto de vista da sua manutenção?
Então e o impacto ambiental ? O ruído e a paisagem, não contam? Será bonito ver aldeias e vilas serem invadidas por estas altas e pesadas infra-estruturas?
Num país onde qualquer dia estamos a fazer auto-estradas umas por cima das outras, não será chegada a hora, de percebermos que há dinheiro que tem mesmo de ser gasto.
Não querendo ser nenhum arauto da verdade, não bastaria ao político para melhor compreender a dimensão desta decisão falar com alguns investigadores desta área, fazer uma viagem e conhecer problemas que estão reportados em outros países, ler os relatórios internacionais sobre esta matéria, ou ainda mais fácil e importante, compreender a 'felicidade' de alguém que vive com essas coisas a passar por cima dos seus telhados.
Até já.
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