segunda-feira, 20 de agosto de 2007

UM RESISTENTE DO ESTADO NOVO!

Será legitimo ao homem que conta as suas memórias, introduzir nos seus próprios relatos impressões pessoais, afectos, imagens, momentos de um tempo passado ? Estou certo que sim, uma vez que qualquer pessoa quando parte para a leitura de uma autobiografia ou memórias, sabe que aquilo que vai ler é objectivamente uma perspectiva pessoal, quer de um percurso de vida quer de momentos que fizeram a história desse tempo.

Aquilo que não é aceitável é adulterar a história, adulterar os factos, ainda mais usando afirmações de outros de quem já apenas existe memória, recontando uma história, moldando-a aos ideais então defendidos, tomando um papel de verdadeiro criador de histórias.

Foi efectivamente isso que aconteceu com uma infeliz passagem das Memórias do Prof. José Hermano Saraiva (página 17 do 5.º Volume – 6.º Década - Anos 70 – I Parte -Em Brasilia editado com o Semanário SOL) onde é relatada uma conversa com o Dr. Luis Filipe Leite Pinto (Subsecretário de estado da educação nacional entre os anos de 1946 e 1949), uma mensagem inaceitável e qualificável apenas como vinda de um resistente salazarista, uma vez que emana da mais fiel propaganda de um regime vencido pela revolução de Abril de 1974, e que atenta contra a memória do nosso herói Aristides de Sousa Mendes, assim escreveu o Prof. Saraiva:

"Fala, a propósito, na operação de salvamento dos refugiados republicanos espanhóis e dos judeus que, no início da Segunda Guerra Mundial, se acumulavam na fronteira de Irun, na ânsia de salvar as vidas. Vieram embarcados nos vagões da Companhia dos Caminhos de Ferro da Beira Alta, que iam até Irun carregados de volfrâmio, e voltavam a Vilar Formoso carregados de fugitivos. A operação foi mantida rigorosamente secreta porque as autoridades espanholas não consentiriam. Segundo um protocolo firmado pelas autoridades ferroviárias dos dois países, os vagões deviam circular selados, quer à ida quer à vinda. Um dos que assim salvaram a vida foi o Barão de Rotschild. O embaixador Teixeira de Sampaio confirmou-me, mais tarde, esses factos. O salvamento de 30.000 refugiados deu-se ao mesmo tempo que o cônsul de Portugal em Bordéus, em cumplicidade com dois funcionários da Pide, falsificava algumas centenas de vistos, que vendia por bom preço a emigrantes com dinheiro. Um dos que utilizaram esta via supôs que todos os outros vieram do mesmo modo - e assim nasceu a versão, hoje oficialmente consagrada, de que a operação de salvamento se deve ao cônsul de Bordéus, Aristides de Sousa Mendes. Este, homem muito afecto ao Estado Novo, nem sequer foi demitido, mas sim colocado na situação de aguardar aposentação. Os seus cúmplices da Pide foram julgados, condenados e demitidos".

Não são novos estes devaneios do Prof. Hermano Saraiva sobre esta matéria, e confesso que até esperava uma referência a Sousa Mendes nestas suas memórias, depois da contundente e determinada exposição do Dr. Fernando Nobre no programa em que foi promotor da proposta de Aristides Sousa Mendes para O Maior Português de Sempre, embora ao mesmo tempo esperasse que o debate desse dia tivesse servido para o Professor Saraiva ter compreendido que as fantasias e a propaganda salazarista não pegavam num tempo de liberdade, que permitiu que nesse dia fosse contada toda a verdade perante milhares de portugueses.

A saber,
Corria Maio de 1940 e em plena segunda guerra mundial, a França era invadida pela Alemanha Nazi, tendo milhares e milhares de refugiados se concentrado no sul de França, fugindo das tropas de Hitler e dos campos de concentração, o cônsul-geral de Portugal em Bordéus era na altura Aristides de Sousa Mendes, que ao emitir vistos estaria a permitir a fuga dos refugiados para Portugal e daí para os Estados Unidos.
Sousa Mendes já tinha sido descoberto a emitir alguns vistos, o que contrariava a circular n.º 14 do Governo de Oliveira Salazar. O teor dessa circular era claro - afirmava a proibição da emissão de qualquer visto a estrangeiros com nacionalidade indefinida, contestada ou em litigio, apátridas, portadores de passaportes nanson, judeus expulsos dos países da sua nacionalidade ou daqueles de onde provêem, isto é, os refugiados que Aristides Sousa Mendes pretendia salvar.

Sousa Mendes emitiu os primeiros vistos ao Arnold Wiznitzer e Norbert Gingold, tendo este acto resultado num apertado controlo dos seus movimentos por parte da policia politica e num aviso inequívoco do governo em carta oficial datada de 24 de Abril de 1940:
A repetição de factos desta natureza, lesivos da disciplina é altamente prejudicial para o serviço, para os interessados e sobretudo para a indispensável dignidade da função consular.
Fica por isso V.sa advertido que qualquer nova falta ou infracção nesta matéria será havido por desobediência e dará lugar a procedimento disciplinar em que não poderá deixar de ter-se em conta que são repetidos os actos de V.Sa, que motivam advertências e repreensões.

Com a chegada dos refugiados a Bordéus e com a França derrotada pela rapidez motorizada do avanço alemão, chegam ao consulado de Portugal de Bordéus por dia centenas de pedidos de vistos, as pressões exercidas sobre Sousa Mendes eram enormes e ele começou a ceder, tendo passado alguns vistos em finais de Maio de 1940, tendo havido registos de três polacos apanhados pela policia politica, na altura liderada pelo Capitão Agostinho Lourenço, que exasperado com as repetidas infracções de Sousa Mendes escreveu pessoalmente a Salazar, que a 29 de Maio emitiu um despacho para que fossem realizadas as averiguações necessárias com vista à instauração de um processo disciplinar.

Os conturbados dias do inicio do mês de Junho de 1940, levaram a que milhares de refugiados se instalassem à porta do seu consulado de Bordéus no Quai Louis XVIII, tendo Sousa Mendes vivido o maior de todos os dilemas da sua vida: - Salvar aqueles milhares de pessoas de uma morte certa, desrespeitando as ordens de Salazar e sujeitando-se à implacável severidade da punição do ditador português, que certamente se traduziria no fim de uma carreira de mais de trinta anos, e a resignação a um resto de vida ruinoso com o agudizar das já existentes dificuldades? Ou então, virar a cara para o lado, e assumir também a posição de Salazar, de neutralidade perante a guerra, que neste caso concreto, o que seria era uma posição de apoio a Hitler?

A 16 de Junho de 1940, na “Capital de la peur” – Capital do Medo em que se transformara Bordéus, Sousa Mendes decidiu entregar vistos a todos aqueles que o pedissem: “A partir de agora, darei vistos a toda a gente, já não há nacionalidade, raça ou religião!”. Com a ajuda dos seus filhos, sobrinhos e do rabino Kruger, Sousa Mendes assina passaportes, carimba vistos, usando todas as folhas de papel disponíveis.

Trabalhou durante três dias e três noites em Bordéus, tendo posteriormente se deslocado a Bayonne (em condições perigosíssimas!) onde emitiu ainda mais vistos.

Estima-se que cerca de 30 000 vidas terão sido salvas. Foram vistos para a vida, Sousa Mendes afirmou mais tarde: “Era realmente meu objectivo salvar toda aquela gente!”

Aristides de Sousa Mendes regressou a 08 de Julho de 1940 a Portugal, para ser punido por Salazar com a privação do seu emprego diplomático por um período de um ano, reduzindo em metade o seu salário, antes de o aposentar; para além disso, é proibido de exercer a profissão de advogado e é lhe retirada a licença de condução por ter sido emitida no estrangeiro.
Após a demissão, Aristides de Sousa Mendes e a sua numerosa família sobrevivem graças à solidariedade de diversas proveniências, é conhecida a ajuda de pessoas humildes em Cabanas de Viriato e também da Comunidade Judaica de Lisboa, que facilitou a alguns dos seus filhos os estudos nos Estados Unidos, dois deles participaram no desembarque da Normandia.

Em 1945 o Dr. António Oliveira Salazar congratulou-se por Portugal ter ajudado os refugiados, numa tentativa de promover a imagem externa do país perante os países aliados, é conhecida afirmação: “Qual país mais generoso, que foi capaz de receber estes milhares de refugiados”.
O final de Sousa Mendes foi ainda pior: - Venda de bens, morte de sua esposa D.ª Angelina em 1948, emigração dos filhos para o estrangeiro.
Sousa Mendes faleceu muito pobre a 03 de Abril de 1954 no Hospital da Ordem Terceira em Lisboa.

Esta é a verdadeira história, a história de um homem bom, de um exemplo de solidariedade e de compaixão humana, um homem que decidiu “estar bem com Deus contra os Homens, do que com os Homens contra Deus”.

Aristides Sousa Mendes como qualquer outro mortal cometeu certamente erros, cometeu faltas, pecou como todos os mortais; mas é essa condição de ser humano, que faz com que a dimensão da sua consciência naqueles dias de Junho de 1940, torne todo este acto ainda maior, e que faz com que ainda hoje os seus valores e a sua condição de herói, seja contemplada um pouco por todo o Mundo.

É esta a verdade! É esta a verdade que o Prof. Hermano Saraiva facilmente perceberia com alguma investigação das provas documentais existentes, que como alegado Historiador certamente necessitaria de consultar, dos testemunhos existentes, dos diversos relatos, isto é, de tudo aquilo que os salazaristas esconderam durante anos.
Uma coisa tenho por certo, o acto de Sousa Mendes, não é mesmo compatível com o país
silenciado, iletrado e beato do Estado Novo.






3 comentários:

  1. Ricardo Nuno ,sou filha de uma Cabanense que ai nasceu no ano de 1915 ,que tudo o que me contou não conrresponde á historia imaginada pelo Sr Professor ele nunca aceitou a verdade dos factos e tenta distorcer .Mas felizmente ainda existem pessoas vivas que podem confirmar que Dr Aristides de Sousa Mendes foi um Grande Português

    Carlota Joaquina

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  2. Quer-me parecer que o meu caro, não está muito informado da realidade do Estado Novo, das suas figuras, e até da história do próprio Aristides...

    Há que estudar, ler, e não falar pela cabeça de outros!
    Neste momento saem muitos livros com a temática do EN, Salazar, e seus Opositores, leia.. e vai descobrir que afinal, não é bem como alguns querem fazer crer!

    Um Forte Abraço

    Luísa Mendes

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  3. Muito Boa Noite!

    É a realidade democrática em que vivemos que permite essa liberdade de expressarmos livremente as nossas ideias, pensamentos, afectos, sem as perseguições de outrora.

    É em nome dessa liberdade, que a senhora Luisa pode aqui vir a este blogue expor também as suas ideias, pensamentos, afectos, sem as perseguições de outrora.

    Gosto dessa liberdade. Sou assim... e pronto!

    Gostava só de lhe dizer que não deve presumir sobre o que nao conhece, presumir é um erro.

    E errou quando presumiu que nao leio, que nao me interesso por esse periodo de Portugal em que viveram parte dos meus antepassados, que nao participo em boas discussões com meus amigos de gerações anteriores e que hoje me oferecem o seu valioso testemunho, e que até com as responsabilidades que tenho, com as intervenções que tenho de fazer, nao o faça com a plena certeza dos factos, que nos mne levam a considerar Aristides Sousa Mendes um dos grandes herois do século XX.

    Leia por favor, por exemplo, Um Homem Bom, Editora Caminho, Rui Afonso, aí começará a ter algumas respostas.

    É esse conhecimento desse Estado Novo (através de livros claro!), que me leva a concordar com Churchill, a pior democracia é sempre melhor que a melhor das ditaduras.

    No caso português, penso até que foi esse período de 48 anos responsáveis por uma determinada forma de estar menos conseguido, que nós portugueses, aqui e ali, ainda vamos revelando...

    Obrigado por vir ao meu blogue!

    Cumprimentos
    Ricardo Campos
    Ricardo Campos.

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